Crónica: Dilema

02-02-2010 22:01

Cultura Linguagem Comunicação

Crónica

Dilema

 

Ao longe, de longe ouvem-se choros, gritos de dor, de quem?

Quem será?

Todos largam tudo e correm atrás do som; ao chegar perto a família está desesperada, incrédula, com as mãos agarradas à cabeça olhando uns para o céu, outros para o chão e outros para além do horizonte, lamentando o seu infortúnio.

Cada vez chega mais gente para consolar e prestar o seu alento à família e o começo dos preparativos materiais para a entrega do corpo ao campo da paz eterna.

Um, dois, três dias até toda a família de longe chegar e o terreiro cheio de gente, dia e noite, chorando, cantando, comendo, bebendo e o batuque a tocar; chega a hora vão todos em fila indiana no carreiro estreito, chorando, lamentando e a caminhada é longa, ninguém desiste de acompanhar para a eterna despedida da vizinha, amiga e parente cumprindo com o seu desejo final.

Regressam novamente no carreiro em silêncio e ocupam de novo o terreiro da casa, homens agrupam-se a conversar e as mulheres confeccionam os alimentos e bebidas para oferecer a toda gente sem horários a cumprir, pelo dia ou noite dentro.

Esta pessoa será sempre recordada, em dias festivos (casamentos, aniversários, natais e pascoas) com oferendas de alimentos e no dia seguinte oferecidos às crianças.

Esta é a cerimónia fúnebre da cultura materna, sei descreve-la por ouvir contar, não vivi nenhum momento pessoal; quando as minhas avós e tias faleceram eu já não estava em África, por causa da maldita guerra que me atirou para este canto distante, frio, triste, com muita pena de não estar presente mas, guardo aquele cheirinho da pele já cansada da minha bisavô onde eu me encostava e procurava protecção, adormecendo confortavelmente, as histórias de fantasmas contadas pela minha avô ao luar e as tranças feitas pela minha tia antes de ir para a escola.

O meu irmão partiu num dia de Junho, de sol radiante, mar calmo, azul parecia verão, num barco de pesca rumo a São Martinho e nunca regressou e a esperança está perdida de esperar, após longos vinte e seis anos.

Esta é a face da morte, todas elas diferentes em causas, locais e formas de venerar; o meu adeus, não sei?

Mas é certa, o fim da minha permanência e passarei a ser recordação.

Presentemente carrego a culpa: o abandono das minhas raízes e a renúncia da minha cultura.

                                Matilde Pinto        nº 5                Efa 1